22:11:2015

Não sei ao certo como escrever isto, de que me servem as palavras se estas desaparecem-me por entre os dedos mal eu as termine de escrever. Há lutas e sentimentos que de pouco valem se não forem partilhados, mas também há aqueles que o são e, no entanto, o vazio consegue, mesmo assim, preencher-nos. A nós e a eles. É uma sombra que, pouco antes de se por o sol, se alonga entre um eu e um tu. Alongados deitamo-nos sobre a terra, eternos na sua imensidão. E, no entanto, não passamos de sombras, se nos tentarem apanhar escaparemos ao vosso abraço. Paralelos seguimos, esticados até ao infinito, esse horizonte que nunca chega, até o mundo ser também ele tomado pela sombra. E tudo será sombra. E não haverá diferença alguma entre a minha e a tua. Não haverá diferença nem nada que nos distinga. E então pergunto: o que me distingue agora? Que é como quem diz: que diferença faço agora? E a única resposta que me surge é um absoluto ponto final

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24:08:2015

Um dia como este não devia nascer para que me lembre dele desta forma. Ver-te soprar as velas uma última vez, sabendo que assim seria e que o desenrolar da vida não era mais que o enrolar da bainha da morte. Hoje, e mais uma vez, não há velas, nem palmas, nem lágrimas nos olhos de ninguém. Porque este dia não existe nem nunca mais termina para que me esqueça eu dele.

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19:02:2015

Há poucas coisas na vida que me dão maior prazer que sentir o vento na face quando corro. Sabem, aquela espuma de sopro que refresca a pele e quanto mais corremos mais fluída ela parece? É isso, se me perguntarem é isso. E sei que um dia deixarei de correr, deixarei de sentir essa força que em mim embate e separo em duas, cada uma das partes para seu lado e eu no meio de ambas, rasgando o que era dantes uno e agora sou eu. Em cada corrida nasço no início, vivo durante e morro no final, rendido ao meu cansaço. E, no entanto, não deixa nunca de ser uma vida inteira, a passos largos, em linha recta ou a curvar como se a terra me quisesse atirar para fora dela. Sou toda a vida que posso um dia ser naqueles momentos e quando termino é o fim, meu e dela. E juntos morremos de coração aos pulos, um a pedir mais, outro a pedir menos, porque no fim, não nos tendo ensinado ninguém a lidar com ele, metemos os pés pelas mãos e fingimos desfalecer na esperança que alguém nos veja e perceba que não passa de uma brincadeira. E até lá mortos ficamos, parecendo vivos por mero engano e capricho. Não passamos de bicho-carpinteiro, a erguer joelhos vida fora para no fim tombarmos sufocados pelo caruncho que nos mastiga por dentro, até ao último dedo.

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19:01:2015

As palavras são representações daquilo que queremos que elas signifiquem, quer sejamos a pessoa que as diz, quer sejamos a pessoa que as escuta ou lê. E nada pode ser mais irónico que vislumbrar a duplicidade que uma palavra pode conter dependendo do momento em que esta existe. Um dia um casamento, cheio de ideias, planos e esperança num futuro que se julga na mão. No dia seguinte um funeral, cheio de memórias das ideias e dos planos que se realizaram ou não. E, no entanto, as palavras que aquele padre disse foram as mesmas. Pai nosso que estais no céu. E nestes dois dias percebi que o céu só depende para onde olhamos, para cima ou para baixo. Para ti e os teus olhos que se abrem num sorriso. Ou para a cova que se abre e, por fim, se fecha numa mão cheia de terra e de tudo o que fomos um dia capaz de ser. Fim.

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03:11:2014

A loja de animais no primeiro andar de um centro-comercial antigo e apertado repete-se nos sonhos. Acabo sempre por lá voltar e vejo os peixes aprisionados nos seus aquários provisórios. A loja ocupa todo o andar e nas escadas já guardados os peixes mais velhos, alguns mortos. Sinto a alegria juvenil de uma criança que descobre um mundo mas no final termino triste por todo aquele quadro de água podre e peixes à tona dela, rebentados de tudo aquilo.

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11:08:2014

Quantas vezes se fala de amor verdadeiro? Como se o primeiro não fosse sempre o segundo, como se o amor não passasse de um rabisco, um som, mesmo que familiar, quando a verdade não lhe contorna as margens. Por isso não quero ouvir em amor verdadeiro, puro ou genuíno porque o amor simplesmente é e não precisa de nenhum acrescento para se fazer vingar. Por isso se ama. Ponto final.

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17:04:2014

Tomara poder dizer aquelas coisas que sempre ficam bem dizer. Mas não sou capaz de fazê-lo, não da forma sincera como me exijo a falar das coisas, posso errar, posso não dizer coisa com coisa, mas ao menos saberão que o que sai da minha boca será uma redundante sinceridade. Seja ela minha ou não. E então hoje nada me sai, apenas este texto que, sendo mais próximo de ti do que eu admitirei um dia, não hesito em terminar de vez.

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23:11:2013

Não sabe o corpo a sorte que tem por ter cabeça para pensar, coração para bater e, no entanto, mantém-se ele fiel à sua natureza de estanque corpo. Opaco e dimensional. Se o deixarem estar ele é, se o deixarem esquecido ele será. Mas não esta cabeça, parte fulcral do mesmíssimo corpo, é certo, mas que, de nariz empinado ao ar, teima em ser mais do que aquilo que na realidade é, uma cabeça. E enquanto essa cabeça corpo é não mais que um peso suspenso pelo pescoço, esse traiçoeiro de estalos a torto e a direito,esta outra cabeça atira-se a pensamentos e aos seus respectivos, os sofrimentos que, enleados, passo a passo, passo cruzado, trote e marcha, não há passo em falso que não passe diante dela. Perdida a deixam, tombada no já mencionado pescoço. a fingir ser apenas uma cabeça e não todo o sofrimento que o corpo não sentiu nunca.

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21/10/2013

Como pode isto chegar? Sabermo-nos finitos. Damos um passo e percebemos que não daremos outro. Olhamos diante de nós e nada vemos e sabemos que quando o inevitável piscar de olhos vier será também ele o último. E não o teremos esperado, não teremos feito qualquer contagem decrescente. Três. Dois. Um. Não. Simplesmente abriremos os olhos e repararemos agora que será a última vez. E, por mais que nos esforcemos por manter os olhos abertos e vislumbrar tudo o que nos faltou ver nestes derradeiros e ingratos instantes, saberemos que a natureza nos irá trair. Pois ela segue a máxima de quem nos ergue também nos derruba. E não faz ela se não o seu papel, sei-o. E ela, então, fechar-nos-á os olhos e, com eles eternamente fechados, iremos nós para onde ela nos levar. E trocaremos de mãos. E a vida será a morte, como sempre foram estas senhoras, simplesmente trocámos de mãos, da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita, porque a senhora é na realidade uma apenas e apenas a vemos de um lado ou do outro. Nada muda. Nunca.

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04:10:2013

Quando o sono se chega a ti e se enrola num abraço de vastidão vazia, saberás tu o que é a morte do se ser.

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