14:09:2018

O corpo é meu. Mas não está sozinho. Quantas vezes descuramos a mente? Quantas vezes minoramos o corpo? Como se um e outro fossem distintos, imiscíveis, como se um não se refletisse no outro. Como se um não tivesse influência direta no outro. E no entanto, há vezes em que desprezamos, repudiamos até, um e outro. Corpo e mente, grandes ou pequenos, limitam-nos. E, no entanto, se conseguirmos encontrar um equilíbrio perfeito entre um e outro, têm o poder de nos ilimitar. Fazem-nos correr mais rápido ou refutar preconceitos com maior afinco. Um e outro, corpo e mente. Há alturas em que um nos fica aquém, por vezes com as expetativas que temos – ou têm – nele. Ganhamos ou perdemos peso, os dias parecem-nos cinzentos e opacos. E uma coisa leva a outra, quando damos por isso estamos com um corpo e uma mente que não (re)conhecemos. E estes períodos podem efetivamente arrastar-se por meses, anos, décadas. Ao ponto em que esta massa e este vazio começam a confundir-se com quem somos. E então, a partir de certo ponto, começamos a acreditar que assim somos. Não vemos diferença entre nós e aquela pessoa no espelho, na sombra, nós. Como se não bastasse, as pessoas com quem lidamos no dia a dia começam igualmente a acreditar que aquela carne despegada, aquele olhar vazio é nosso. E tudo isto se arquiteta na construção de uma imagem que passa a ser a nossa. Quando nos esquecemos e se esquecem de quem éramos, passamos a ser aquilo que somos. Qual a diferença entre ser e não ser se não há dia, mês, ano em que não sejamos assim em vez de assado? Quem distingue? Quem arbitra? Eu? Tu? Não é por acaso que quando nos conseguimos a agarrar a uma, por vezes inesperada, luz, sentimos estranheza. Será este o caminho que quero tomar? Será este o caminho que preciso tomar na vida para voltar a ser – acho, não sei – aquilo que fui antes? Como ter a certeza se tanto o corpo como a memória te falham e permaneces na ignorância até lá chegares? Mas seguimos caminho, nem sempre com a honesta motivação que dizemos ter a quem nos ouve. Quantas vezes ficámos pelo caminho e lá regressámos ao nosso olhar vazio, ao nosso peso que nos esmaga um dia de cada vez. Pior, quantas vezes já nos obrigámos a colocar a máscara da boa-disposição, da eteeerna boa-disposição para que este abate que nos assola, corpo e alma, nunca chegue a ser o foco dos meus – e vossos – olhares. E lutamos, sem saber como ou porquê, por vezes com a motivação de uma simples palavra, murros no ar, caminho incerto, mas lá vamos. E uma vez que seja, chegamos a algures. É-nos vagamente familiar, tocamos aqui e ali, inspiramos fundo e reconhecemos este cheiro de uma outra vida. Sim, é este o espaço que ocupo – e ocupamos -, corpo e mente. E se há quem estranhe alguma mudança, se há quem sinta saudades do sorriso sempre posto, da disponibilidade sem hesitação, do sim e nunca do não, então é porque não percebe que na realidade sente falta de máscaras que não estou, nem estamos dispostos a colocar. Já não.

Anúncios
Publicado em Prosas

22:11:2015

Não sei ao certo como escrever isto, de que me servem as palavras se estas desaparecem-me por entre os dedos mal eu as termine de escrever. Há lutas e sentimentos que de pouco valem se não forem partilhados, mas também há aqueles que o são e, no entanto, o vazio consegue, mesmo assim, preencher-nos. A nós e a eles. É uma sombra que, pouco antes de se por o sol, se alonga entre um eu e um tu. Alongados deitamo-nos sobre a terra, eternos na sua imensidão. E, no entanto, não passamos de sombras, se nos tentarem apanhar escaparemos ao vosso abraço. Paralelos seguimos, esticados até ao infinito, esse horizonte que nunca chega, até o mundo ser também ele tomado pela sombra. E tudo será sombra. E não haverá diferença alguma entre a minha e a tua. Não haverá diferença nem nada que nos distinga. E então pergunto: o que me distingue agora? Que é como quem diz: que diferença faço agora? E a única resposta que me surge é um absoluto ponto final

Publicado em Prosas

24:08:2015

Um dia como este não devia nascer para que me lembre dele desta forma. Ver-te soprar as velas uma última vez, sabendo que assim seria e que o desenrolar da vida não era mais que o enrolar da bainha da morte. Hoje, e mais uma vez, não há velas, nem palmas, nem lágrimas nos olhos de ninguém. Porque este dia não existe nem nunca mais termina para que me esqueça eu dele.

Publicado em Prosas

19:02:2015

Há poucas coisas na vida que me dão maior prazer que sentir o vento na face quando corro. Sabem, aquela espuma de sopro que refresca a pele e quanto mais corremos mais fluída ela parece? É isso, se me perguntarem é isso. E sei que um dia deixarei de correr, deixarei de sentir essa força que em mim embate e separo em duas, cada uma das partes para seu lado e eu no meio de ambas, rasgando o que era dantes uno e agora sou eu. Em cada corrida nasço no início, vivo durante e morro no final, rendido ao meu cansaço. E, no entanto, não deixa nunca de ser uma vida inteira, a passos largos, em linha recta ou a curvar como se a terra me quisesse atirar para fora dela. Sou toda a vida que posso um dia ser naqueles momentos e quando termino é o fim, meu e dela. E juntos morremos de coração aos pulos, um a pedir mais, outro a pedir menos, porque no fim, não nos tendo ensinado ninguém a lidar com ele, metemos os pés pelas mãos e fingimos desfalecer na esperança que alguém nos veja e perceba que não passa de uma brincadeira. E até lá mortos ficamos, parecendo vivos por mero engano e capricho. Não passamos de bicho-carpinteiro, a erguer joelhos vida fora para no fim tombarmos sufocados pelo caruncho que nos mastiga por dentro, até ao último dedo.

Publicado em Prosas

19:01:2015

As palavras são representações daquilo que queremos que elas signifiquem, quer sejamos a pessoa que as diz, quer sejamos a pessoa que as escuta ou lê. E nada pode ser mais irónico que vislumbrar a duplicidade que uma palavra pode conter dependendo do momento em que esta existe. Um dia um casamento, cheio de ideias, planos e esperança num futuro que se julga na mão. No dia seguinte um funeral, cheio de memórias das ideias e dos planos que se realizaram ou não. E, no entanto, as palavras que aquele padre disse foram as mesmas. Pai nosso que estais no céu. E nestes dois dias percebi que o céu só depende para onde olhamos, para cima ou para baixo. Para ti e os teus olhos que se abrem num sorriso. Ou para a cova que se abre e, por fim, se fecha numa mão cheia de terra e de tudo o que fomos um dia capaz de ser. Fim.

Publicado em Prosas

03:11:2014

A loja de animais no primeiro andar de um centro-comercial antigo e apertado repete-se nos sonhos. Acabo sempre por lá voltar e vejo os peixes aprisionados nos seus aquários provisórios. A loja ocupa todo o andar e nas escadas já guardados os peixes mais velhos, alguns mortos. Sinto a alegria juvenil de uma criança que descobre um mundo mas no final termino triste por todo aquele quadro de água podre e peixes à tona dela, rebentados de tudo aquilo.

Publicado em Prosas

11:08:2014

Quantas vezes se fala de amor verdadeiro? Como se o primeiro não fosse sempre o segundo, como se o amor não passasse de um rabisco, um som, mesmo que familiar, quando a verdade não lhe contorna as margens. Por isso não quero ouvir em amor verdadeiro, puro ou genuíno porque o amor simplesmente é e não precisa de nenhum acrescento para se fazer vingar. Por isso se ama. Ponto final.

Publicado em Prosas

17:04:2014

Tomara poder dizer aquelas coisas que sempre ficam bem dizer. Mas não sou capaz de fazê-lo, não da forma sincera como me exijo a falar das coisas, posso errar, posso não dizer coisa com coisa, mas ao menos saberão que o que sai da minha boca será uma redundante sinceridade. Seja ela minha ou não. E então hoje nada me sai, apenas este texto que, sendo mais próximo de ti do que eu admitirei um dia, não hesito em terminar de vez.

Publicado em Prosas

23:11:2013

Não sabe o corpo a sorte que tem por ter cabeça para pensar, coração para bater e, no entanto, mantém-se ele fiel à sua natureza de estanque corpo. Opaco e dimensional. Se o deixarem estar ele é, se o deixarem esquecido ele será. Mas não esta cabeça, parte fulcral do mesmíssimo corpo, é certo, mas que, de nariz empinado ao ar, teima em ser mais do que aquilo que na realidade é, uma cabeça. E enquanto essa cabeça corpo é não mais que um peso suspenso pelo pescoço, esse traiçoeiro de estalos a torto e a direito,esta outra cabeça atira-se a pensamentos e aos seus respectivos, os sofrimentos que, enleados, passo a passo, passo cruzado, trote e marcha, não há passo em falso que não passe diante dela. Perdida a deixam, tombada no já mencionado pescoço. a fingir ser apenas uma cabeça e não todo o sofrimento que o corpo não sentiu nunca.

Publicado em Prosas

21/10/2013

Como pode isto chegar? Sabermo-nos finitos. Damos um passo e percebemos que não daremos outro. Olhamos diante de nós e nada vemos e sabemos que quando o inevitável piscar de olhos vier será também ele o último. E não o teremos esperado, não teremos feito qualquer contagem decrescente. Três. Dois. Um. Não. Simplesmente abriremos os olhos e repararemos agora que será a última vez. E, por mais que nos esforcemos por manter os olhos abertos e vislumbrar tudo o que nos faltou ver nestes derradeiros e ingratos instantes, saberemos que a natureza nos irá trair. Pois ela segue a máxima de quem nos ergue também nos derruba. E não faz ela se não o seu papel, sei-o. E ela, então, fechar-nos-á os olhos e, com eles eternamente fechados, iremos nós para onde ela nos levar. E trocaremos de mãos. E a vida será a morte, como sempre foram estas senhoras, simplesmente trocámos de mãos, da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita, porque a senhora é na realidade uma apenas e apenas a vemos de um lado ou do outro. Nada muda. Nunca.

Publicado em Prosas